quinta-feira, 5 de julho de 2007

Fel

Era cedo ainda. Ela acordou e nada sentia. Apenas uma leve pontada no peito, acompanhada da maior angustia que já sentira na vida. Mas havia se acostumado a essa dor. Levantou-se, arrumou-se como para uma festa. Tomou um banho daqueles revigorantes. Vestiu sua melhor roupa, maquiou-se e sem hesitar, saiu de casa sem destino. Procurava encontrar o que havia perdido. E o que havia perdido estava muito longe de ser encontrado em um bar, em risadas ou em qualquer outro sorriso.
Faltava-lhe vida. Faltava-lhe a vontade de viver que outrora tivera.
E caminhou. Sem direção, sem rumo, sem destino. Ao menos se sentia bonita. Ao menos era observada, cobiçada, adorada. Mas nada daquilo fazia o menor sentido dentro de si mesma. Seus almejos estavam longe de se concretizar e suas certezas agora não passavam de mera história. Seu passado a condenava a infelicidade. Não acreditava que pudesse haver felicidade maior do que a que já vivera.
Hesitante e pensativa, decidiu retornar para sua casa. Despiu-se. Tornou a tomar banho para ver se a água corrente levava embora toda aquela dor. E claramente isso não aconteceu.
Saiu do banho, jantou seu prato predileto, saboreando cada garfada como se fosse a última e dirigiu-se para seu aposento. No caminho, decidiu buscar o que achara ser a solução de seus problemas. Passou, então, em sua cozinha e encheu seu copo amarelo, diga-se de passagem, sua cor preferida, de água. Procurou, em um armário escondido, um vidro púrpura de sabor amargo que comprara de uma velha amiga muitos anos antes.
Acompanhado de 5 comprimidos para dormir, ela ingeriu aquele líquido incolor e infeliz e deitou-se. Acalmou-se e foi pegando no sono, com a certeza de que aquela dor aguda e aquela angustia nunca mais a incomodariam.

Eu sou chata, azeda, exigente. Gosto de regras. Aliás, preciso delas. Isso não significa que eu não as quebre vez ou outra. Me perco com mu...