terça-feira, 18 de outubro de 2016

E se torna SAGRADA o que se aprende como FAMÍLIA.

Tenho algumas impressões ao longo dos meus dias. Essas impressões são como percepções da vida que se formam na minha cabeça. Prefiro chamar de impressões porque não as considero verdades absolutas. São apenas impressões. Elas são sempre mutáveis, desde que o prisma como enxergo as situações mudam, se transformam, amadurecem. Outro dia tive uma dessas absorvi uma dessas novas impressões. Vendo algumas fotos, tive a impressão de que saudade nada mais é do que a representação emocional da importância que algo teve na sua vida. E o que trouxe isso à tona foi entrar em contato com pessoas que fizeram parte da minha vida durante a minha infância. Mais especificamente dos anos que estudei na escola que marcou a minha vida pra sempre. Percebi como sinto falta da minha infância. Não de mim quando tinha aquela idade. Sinto falta do tempo, dos dias, da forma como a vida se desenrolava. Sinto falta dos cenários, dos personagens. Sinto falta até da falta de tecnologia. Principalmente. Mas foi essa tecnologia que me permitiu trazer essas lembranças. Hoje as imagens são meio amareladas. Tanto nas fotos, quanto na minha memória. Mas há coisas tão vivas que chego a sentir no tato, no toque, no cheiro e na alma.    ,
                                                                        
Segunda-feira era um alvoroço só. Nada de preguiça, nada de reclamar. Eu gostava mesmo era da segunda-feira. Era hora de reencontrar meus amigos depois do fim de semana. Fazer a fila pra entrar pra sala todo mundo junto, em ordem.
Quando as aulas eram em sala, eu tentava me concentrar. Muito embora a ideia de correr por aqueles pátios imensos me entorpecesse. Mas ao toque do sinal anunciando o recreio, essa ansiedade se transformava em euforia. Era dada a largada para a corrida à cantina.
“Me dá as frentes?”
“Não, te dou as costas.”
Nos dias de hoje, essas seriam frases ditas com uma conotação talvez nunca cogitada por nós. Não na idade que falávamos isso. Mas era assim que a gente furava fila em 1980 e poucos. Ou muitos.
“Seu pastor, me vê um misto e uma coca!”.
A hora da merenda, como costumávamos chamar, era um momento coberto de liberdade. Numa quadra imensa, uns corriam, outros permaneciam sentados nas mesinhas que ficavam perto da horta. Sempre tinha a tia Rosa, a tia Graça, a tia Leila e a Geraldina pra nos espionar... ops, superviosionar.
E quando a aula depois do recreio era de educação física?
Minha nossa, quanta alegria. A vida era realmente uma perfeição só.
O mês de maio era especial. Sabíamos que seria coberto de orações conduzidas pela voz aguda e estridente da Irmã Maristela. Aquele microfone parecia já conhecer o roteiro:

“Consagração À Nossa Senhora
Oh, Minha Senhora, oh minha mãe
Eu me ofereço, toda a vós
E em prova da minha devoção para convosco
Eu vos consagro neste dia
os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração
inteiramente todo meu ser
e por ser assim tão vossa
oh incomparável mãe.
Guardai-me
Defendei-me
Como coisa a própria vossa
Amém”

“Magnifica.
Magnifica.
É o caanto
De aamor
Minhalmen
Grandece
Adeeeus
Meu sal-va-dor...”

"Põe tua mão, na mão do meu Senhor, da Galileia...
Põe tua mão, na mão do meu Senhor que acalma o mar...
Meu Jesus, que cuida de mim, noite e dia sem cessar
Põe tua mão, na mão do meu senhor, que acalma o mar...

VIVA NOSSA SENHORA!

Nos organizávamos em ordem crescente no pátio da frente da escola. A primeira fila, lá perto do palco, era do maternal da Tia Terninha. Todos tivemos o maternal da tia Terninha com aquele vestidinho azul e aquele tapetinho fantástico. A melhor soneca da infância.

Conforme mudávamos de série, mudávamos de localização naquele pátio com chão de azulejos amarelos. Eram quadrados pequenos, mas todos que por ali passaram, mediram seus pés. Todos que "formavam" para cantar o hino nacional, para rezar, para ouvir à Irmã Hermínia, sentia a necessidade de que seu pé ainda coubesse naquele quadradinho.
"Dá um quadrado de espaço pro coleguinha".

O parquinho que antes era o nosso êxtase diário se tornou pequeno demais. Agora usávamos a roupa de gala. Saia de Brim, camisa de botão, emblema da escola no peito. Tudo bege e marrom. Eu, particularmente, sempre troquei a saia pela calça. Nunca gostei.
Uns tocavam na banda marcial. Eu tocava Lira. E sentia um orgulho imenso de vestir aquele uniforme. Outros empunhavam as bandeiras. O desfile de 7 de Setembro na 28 era a sensação do ano. Os ensaios da banda nos sábados de manhã eram sagrados. Nossa, como a vida era boa!

Mas o êxtase mesmo estava na Oitava Série. A famosa série onde você podia ir pra escola de "roupa normal". A entrega dos uniformes. Um ritual. Infelizmente aquele "convite" me negou essa realização. Meu ritual foi na Sétima mesmo. Sem honras, sem emoção. Também pudera. Eu não era lá um exemplo de aluna no que concerne o assunto comportamento. As notas até eram boas, mas de resto... só o tempo pra me ensinar mesmo. E como foi duro deixar. Como foi duro não estar com aquelas pessoas. Acho que foi minha primeira grande separação, minha primeira grande decepção. Minha primeira grande lição!

Hora da chamada. Meu número sempre girava entre o 27 e 32. Mas isso não tem nada a ver com o que estou contando. Eu só lembrei mesmo.

Todo e qualquer evento que tinha na escola era “O evento.” Eu fui Nossa Senhora, eu fui anjo... eu fui atriz, musicista, ajudante da tia Terninha. Eu fui até da parte de esporte do grêmio. MInha chapa se chamava Opção, e o nosso jingle de campanha nunca saiu da minha cabeça. Era uma paródia de Roberto Carlos. É... a gente ouvia Roberto Carlos.

“Vote uniforça, não não.
Vote Opção.
A Opção virou minha cabeça e o meu coração”

A gente não xingava o professor. Você se imagina xingando a tia Hilda ou a Tia Luiza? Tia Beatriz? Tia Aparecida? Tia Andreia? Tia Terninha? O Ricardo Sepe? A Ana Cristina, de matemática? Não tem como. Hoje eu sei que eu não tinha medo deles. Eu descobri que a minha primeira lição de respeito veio deles. De admiração. De carinho.


Muitas das lembranças maravilhosas eu infelizmente não consigo dividir. Não consigo reproduzir. Não consigo desamarelar a ponto de colocar em palavras. Elas são tão minhas! São tão particulares!
São memórias que eu jamais vou conseguir esquecer. Acho que todos os anos da minha vida vão passar, mas eu nunca vou deixar de ser a Ludmilla, aluna do Educandário Sagrada Família. Porque foi exatamente isso que todos se tornaram para mim. Uma Sagrada Família.

Eu estava passando na porta da escola quando vi as cadeiras saindo. Vi um caminhão parado e vi que estavam tirando as carteiras. Não me toquei no momento, mas no instante seguinte a realidade me veio como um pedregulho na cabeça. Como eu poderia conviver com a ideia de que meus filhos nunca vão poder ter contato com a educação que eu tive? Sofri ali, dentro do meu carro. Minhas lágrimas não puderam ser contidas. Aquele era, de fato, o fim da minha história.
Todas as vezes que passo por lá, faço questão de olhar pra dentro. Faço questão de ver o carramanchão, ainda verdinho, perdendo sua cor. Faço questão de ver as paredes perdendo a cor, o chão se desbotando. Como eu fui feliz. Acreditem, eu fui verdadeiramente feliz naquele lugar.

A todos vocês, mestres, alunos, irmãs, aqui fica o meu muito obrigada. Obrigada por me proporcionarem os melhores anos da minha vida. Obrigada por me marcarem a ponto de me fazerem lembrar de cada detalhe, de cada momento que, por ter se tornado tão especial, se tornou também inesquecível.

“A vida é curta. Vivamos com a consciência tranquila e teremos o Céu perto de nós."


Eu sou chata, azeda, exigente. Gosto de regras. Aliás, preciso delas. Isso não significa que eu não as quebre vez ou outra. Me perco com mu...