sábado, 4 de abril de 2026

NÃO TEM COMO PARAR

Ando descobrindo muitas coisas nessa tal de vida adulta. Que é difícil, todo mundo sabe. Mas pra uma pessoa neurodivergente o troço se embola de tal maneira... Porque, além de lidar com todas as dificuldade que a vida adulta impõe, você ainda tem que lidar com as dificuldade que seu cérebro diferente traz. E olha que nem é um post autolamentativo não. Porque não to nem com disposição para me autolamentar. O intuito desse post é apenas um esvaziamento controlado do meu HD cerebral. E também um lembrete de como não me inserir novamente nesse contexto caótico no qual me encontro neste exato momento. Ano passado, em meados de agosto, eu tive uma baixa do meu trabalho como tradutora. Uma baixa normal, como sempre aconteceu. Só que eu to ficando velha. Os altos e baixos da vida de freelancer não me atraem mais tanto quanto antes. Decidi buscar um emprego formal. Professora. Nasci assim. Nasci professora e tradutora. É o que eu sei (e amo) fazer. Tá bom, tem a fotografia. Mas essa ingrata insiste em impor barreiras intransponíveis. Outro dia falo dela. Enfim, mandei uns currículos e consegui. Professora bilingue do Pré II. Amo. Quando você entra num emprego depois de uma fase com a grana curta, a coisa demora um cadinho até estabilizar. E foi aí que eu precisei interromper meu tratamento do TDAH, porque os remédios são caros pra porra. Os três remédios que eu tomo somam, em média, a bagatela de 700 conto por mês. Esses custos estavam agressivos demais pro meu padrão de vida. Uma das maiores dificuldades que a vida adulta impõe é tomar decisões. E eu tomei a decisão (deveras equivocada) de interromper o tratamento (exclusivamente por questões financeiras). Quando você interrompe um tratamento, a coisa começa a crescer como uma bola de neve. Enxergamos tudo de maneira diferente, com a visão borrada pela neurodivergência. Sério, eu sinto uma vontade absurda de amassar a cara de quem romantiza a neurodivergência, seja ela qual for. “Ah, mas vocês são mais criativos, mais inteligentes”. Algumas pessoas, de fato, são. Mas coloca uma ferrari no transito caótico das 18hs do RJ e me diz se serve de alguma coisa. Porque é examante isso. Um cérebro criativo preso à uma vida que não dá espaço pra ele. Mas nem era disso que eu tava falando. Já tem mais dois temas pra frente, anota aí. Bora voltar pra bola de neve. A minha vida nem tava tão problemática assim, sabe? tive umas questões pessoais durante esse tempo, mas nada que não fosse ser resolvido. Como foi. A única coisa que realmente me afetou foi quando meu cachorro ficou doente. E foi aí que as questões profissionais começaram a me afetar. Meu cachorro ficou muito doente e precisou ser internado. Ele é idoso, sempre foi agressivo, então só eu podia lidar com ele. Exames, internação... Só que eu tinha que ir trabalhar. Qual é o atestado que cobre a falta pra cuidar do cachorro? Descobri que não existe (sim, depois de 13 anos sem trabalhar em regime CLT a gente desaprende algums coisas). A escola não encarou muito bem isso, mas levamos. O ano acabou, entrei de férias, vida que segue. Esse ano letivo começou exatamente como um trator. São muitas nuances que, nesse momento, prefiro não descrever. Talvez outra hora. Na terça feira da semana retrasada, depois de 5 meses indo pra escola de Scooter Elétrica, com autorização de todos que teriam autonomia para decidir se eu podia ou não carregar a bateria da minha scooter na escola, houve uma alteração totalmente abitrária em relação à essa questão. Inclusive, minha bateria foi retirada da tomada sem um aviso prévio, o que me fez ficar sem bateria na rua, ainda longe de casa, o que me levou a passar momentos muito delicados, o que gerou uma crise monstra, que me levou à neuro, que me obrigou a gastar uma grana que eu não tinha em remédios e o que me afastou do trabalho pelo INSS. O que eu quero dizer com tudo isso? Não parem. Não interrompam o tratamento. Ttentem medidas legais para conseguir seus medicamentos pelo SUS. Busquem ajuda de quem quer que seja para comprar seus remédios. Mas não parem. A vida atropela a gente que não enxerga o mundo de forma neurotípica. A gente sente dor. Física, mental e espiritual. A gente se sente incompreendido, porque, de fato, somos. Ninguém enxerga as cores que vemos. Ninguém sente as dores que sentimos. Ninguém é obrigado a saber o que tá passando aí dentro. O mundo, amigão, não te deve nada. Você é quem tem que ter uma sanidade que não veio de fábrica pra entender que seu tratamento é tão importante quanto um tratamento de diabétes. De hipertersão. TDAH não é frescura. Se cuidem.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

TCHAU, RITA. BEM-VINDO, VENVANSE.

Há um tempo meu corpo vem reclamando de algumas coisas. Do cigarro, do peso, do tratamento mal feito que eu tenho seguido para o TDAH. Como assim tratamento mal feito? Vou explicar. Há anos eu estava me tratando com uma neuro. O consultório dela era deveras longe da minha casa (pra não falar que ficava na olhota do Recreio dos Bandeirantes). E consultório longe não é nada convidativo, né? Mas eu ia. Só que, um belo dia, ao ligar para marcar a consulta, fui informada que ela não aceitaria mais nenhum plano de saúde (e que se foda os pacientes antigos). Fiquei puta, mas falei: vou procurar outro neuro.

DU-VI-DO vocês acertarem o que aconteceu?

Pois é. Quase 10 anos depois, eu continuava tomando meu medicamento controlado, autoprescrito. Comprando no mercado clandestino dos medicamentos controlados. Sem horário. Sem rotina. Sem educação.

Só que meu corpo reclamou. Enxaqueca absurda e frequente, dor no maxilar, coração eternamente acelerado. Irritabilidade e agressividade na ponta de uma resposta torta. Zero tolerância pra tudo: frustração, cansaço, pessoas...

Eu sabia que era do remédio. E sabia que a Rita, que há muito me acompanhava nessa minha vida louca, ultimamente, estava me fazendo mais mal do que bem. Picos muito fortes e rebotes muito intensos. Zero equilíbrio.

Então, finalmente, coloquei ação e concluí uma das metas inacabadas: encontrei uma neuropsiquiatra.

Eu sempre tive medo de tomar Venvanse. Tava acostumada com a Rita, já tinha meus horários bem definidos com ela. Sabia que podia tomar um comprimido a mais, caso precisasse estender meu horário de trabalho. Sabia que podia não tomar, caso não tivesse disponível. Sabia que o preço era acessível.

E qual foi a primeira coisa que a médica fez? Sim, ela trocou a Rita pelo Venvanse. Lisvenx, pra ser mais exata. Primo do Venva.

Sabe qual é o meu único arrependimento? Não ter ido ao médico antes. Que sensação maravilhosa essa tal de linearidade. Que sensação incrível é não passar o dia inteiro dormindo um cadinho e acordando. Que sensação incrível essa de dormir de verdade à noite e acordar bem. Produtividade fluindo da maneira que deve ser para um adulto funcional.

Eu sei que remédio não faz milagre. Mas olha... to quase canonizando o Venvanse. E a Risperidona também. Ela também tem seu valor.

Tratamento de TDAH é coisa séria. Se você não consegue sozinho, peça ajuda. Converse com os seus. Mas faça. Trate. Cuide.

Agora vou lá terminar meu trabalho porque tenho hora pra tomar a Risperidona e, depois dela, mais ninguém.

 Beijos da Luda

(AUTOMEDICAÇÃO NÃO É LEGAL. ESTE POST NÃO É PROPAGANDA DE REMÉDIO. SÃO IMPRESSÕES DE UMA NEURODIVERGENTE DESCOBRINDO QUE A VIDA NÃO PRECISA SER TÃO DOLOROSA)


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

TDAH E FRUSTRAÇÃO

Hoje em dia, percebo um aumento significativo nas pessoas que alegam ter TDAH. Não desacredito, óbvio. Bem como não entendo o “orgulho” de verbalizar para o mundo que tem TDAH.

TDAH é um transtorno extremamente difícil. Em vários aspectos. A dificuldade de lidar com diversas coisas é tão latente, que me faz, de fato, questionar se as pessoas entendem o que é o  TDAH.

Mas hoje vou falar da frustração, que, honestamente, é a parte mais difícil para mim.

Essa semana, por algum motivo que desconheço, derrubei uma panela inteira de feijão no chão. Meio quilo de feijão fresquinho, ainda morno, desperdiçado.

Não sei se foi macumba, se foi minha coordenação motora um tanto quanto falha. Só sei que CATAPLOF. Feijão pra tudo que é lado. E quando digo isso, estou falando de feijão nas paredes da sala, debaixo da geladeira, dentro do freezer – que estava fechado – e no meu corpo todo. Um banho de feijão, literalmente.

Para uma pessoa neurotípica – pessoas neurotípicas são aquelas que não tem quaisquer transtornos como TDAH, TEA... – derrubar o feijão seria apenas cansativo e irritante. Você desperdiçou o feijão e ainda vai ter que limpar tudo, certo? Pois é. Quer saber como foi para mim? Uma pessoa com TDAH? Vou tentar descrever.

Sabe quando você tá correndo na praia, areia muito fofa e muito quente e falta muito pra você chegar na calçada? Então... mistura isso com aquela vontade de fazer xixi que chega a doer a bexiga no momento que você não encontra a chave de casa. Agora pega esses dois aí e coloca junto com aquele pernilongo que pica a cabeça do seu dedo mindinho às 4 da manhã. Depois que você misturou tudo, insere a sensação de ter perdido seu celular. Ah! E também a sensação de uma crise alérgica muito forte, que deixa o seu corpo todo coçando.

A frustração, EM MIM, uma pessoa com TDAH, é simplesmente exaustiva. A parte mais difícil de lidar. Ela me tira todas as forças para viver. Eu preciso de muito tempo para me regular. Para voltar a raciocinar. Para deixar de sentir uma dor que nem tudo isso que eu citei acima descreve com exatidão. A frustração, dependendo da situação, me deixa agressiva, introspectiva, deprimida, dolorida. Totalmente desregulada. Cansada. Exausta.

Mas Lud, foi só um feijão?

Para muitos, sim. Para mim, não foi.

Foi o rótulo de desastrada. Foram as críticas vitalícias a respeito da forma como eu faço as coisas. Foi o cansaço de ter que faxinar a cozinha que a minha namorada tinha acabado de faxinar. Foi a autocrítica. Foi o desperdício de comida. Foi a sensação de que eu realmente não sei fazer nada direito.

Hoje, no auge dos meus 42 anos, entendo que preciso me regular. Entendo que não posso passar o resto da vida deitada na cama, vendo série pra desopilar.

O que eu fiz?

Falei pra Sil que não precisava me ajudar. Eu queria fazer sozinha, como num ritual de auto perdão e autocompreensão. Coloquei The Big Bang Theory no celular. E fui, lentamente, catando, jogando água, me perdoando, me aceitando.

Limpei todos os cantos que consegui ver, porque já eram quase 3h da madrugada. Limpei toda a geladeira, incluindo o freezer. Tirei cada peça, passei água, detergente e bactericida.

Terminei. Sentei no sofá da sala, joguei uma partida de xadrez fumando um cigarro. Fui dormir e pensei:

POIS É. AMANHÃ VOU TER QUE FAZER FEIJÃO.

Consegui me regular?

Não.

Mas sobrevivi.

E já vou botar o feijão de molho.


domingo, 19 de janeiro de 2025

ESTE NÃO É UM VÍDEO DIVERTIDO DE 30 SEGUNDOS

Percebo que, hoje em dia, as pessoas não se acanham ao dizer "não gostam de pessoas". A frase vem sempre vinculada a um sorriso cheio de orgulho.

Eu mesma já verbalizei esse sentimento diversas vezes.

Você já parou pra pensar que isso pode estar diretamente atrelado ao fato de que seu cérebro está virando uma massa com utilidade limitada porque a convivência humana que não te oferece uma catarse, uma enxurrada de dopamina a cada 15 / 30 / 90 segundos?

A dopamina é um neurotransmissor responsável por levar informações para várias partes do corpo e, quando é liberado provoca a sensação de prazer e aumenta a motivação. Essa parte eu pesquisei no Google. Mas a partir de agora eu tirei a opinião de dentro do meu orifício anal, ok? Nem precisa ler se não quiser.

Beleza, se liga no raciocínio.

Um filme tem, em média, 2hs de duração, certo? Durante um filme, você cria expectativa de que algo vá acontecer. E acontece. Uma, duas, três coisas. No máximo. Exageremos, pra ilustrar. 10 coisas. Num filme de 2 horas de duração, 10 coisas acontecem. Essas coisas aumentam a sua dopamina, tá?

Quantos 30 segundos cabem dentro de um filme? 240.

Isso mesmo que você leu. 240.

Ou seja, se você passar duas horas vendo vídeos de 30 segundos, sua dopamina vai aumentar 240 vezes.

Dá pra comparar com um filme? É o mesmo tempo, mas não dá.

Se isso que eu falei está certo ou não, eu não sei. Não tenho embasamento científico para comprovar a veracidade das minhas palavras. O embasamento que eu tenho é pessoal. Experimental. Intransferível.

Demorei para entender. Demorei para aceitar que as redes sociais estavam destruindo justamente uma  característica minha que sempre foi tão aflorada: a sociabilidade.

Crises contínuas de ansiedade. Depressão. Insônia num dia, excesso de sono no outro. Baixa tolerância a frustração. Uma tristeza profunda. Medo de sair de casa. Medo de encontrar com as pessoas, de passear. Medo.

Coisas que só amenizavam, um pouco, com aquele meme engraçado ou com vídeos de pessoas levando susto.

Demorei pra enxergar, mas enxerguei.

E to me libertando.

Este não é um vídeo divertido de 30 segundos.


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

CARTA PARA NALA

 Oi, Naleta.

Quarta fez uma semana que você se foi. Hoje acordei sentindo uma saudade esmagadora no meu peito. Fui lá no canil ver seu irmão, mas ele ainda tá com dificuldades para comer. Vou levar ele na tia vet.

Ele fica o tempo todo deitado no mesmo lugar que você dormiu pela última vez. É, filha... ele tá com muita saudade de você.

Sabe filha, eu to naquela fase em que eu to me perguntando se eu poderia ter feito alguma coisa. Por que você não chorou? Não latiu? Não me chamou? Você só deitou e dormiu, filha. A mamãe ainda tá muito confusa e sentindo uma dor do tamanho do mundo.

Eu quero que você saiba, filha, que eu te amei intensamente. Você era sim minha filha. Você é. E sempre vai ser.

Eu espero, de coração, que você esteja bem. Que esteja feliz, brincando com a sua irmã Pérola e com “suplimo” Huffos.

Ainda não acredito que vocês dois se foram.

Por enquanto, filha, eu ainda não consigo sequer pensar em você sem chorar. Essa ferida ainda tá sangrando. Eu to tentando ficar de boa, você sabe como eu sou. Não sou de falar dessas coisas. Mas confesso pra você que tem sido bem difícil.

 

Amo você. E sinto sua falta. Todos os dias.

domingo, 8 de setembro de 2024

A GRANDE ENGENHEIRA DAS OBRAS INACABADAS

Em algum momento da sua vida, você já ficou com aquela impressão de que não termina nada do que começa? Já teve a sensação de que a sua mente é uma caixa cheia de ideias vazias? 

Há poucos meses aconteceram algumas coisas que me fizeram cair em um precipício de dor e reflexão. Situações que me levaram a uma profunda reflexão sobre o meu papel nessa terra e a forma como o exerço.
Como acontece em todo ferimento, sentimos a imensa necessidade de estancar a dor, seja tampando com a mão para parar o sangramento ou desferindo palavras banhadas de raiva para afastar da nossa cabeça a ideia de que tudo o que está acontecendo está intrinsicamente ligado à maneira como nós mesmos nos comportamos e nos apresentamos para o mundo. 

Chamei esta de fase um.

Tomei a liberdade de nomear as fases. Chame-as como quiser. Eu acho mais organizado me organizar desta maneira. Fica mais descritivo. Sei lá. Loucura.

Quando sua visão começa a ficar menos turva e você começa a enxergar uma pequena fresta de luz, você está atingindo a fase dois. Nem sempre acontece. Você começa e ter alguns sentimentos diferentes dos que você estava experimentando até agora. Você pensa que, se tivesse pisado no freio alguns segundos antes, o carro não teria batido. Se não tivesse reagido desproporcionalmente no momento inoportuno, aquela briga não teria acontecido. Mas não se engane. Nesta fase, o campo de visão ainda está encurtado e enxergando apenas aquela situação. As “culpas” começam a aflorar, como se estabelecer um culpado fosse te fazer se sentir menos culpado.


Então, depois de alguns momentos de total desespero, lágrimas e muita coca-zero, você começa a finalmente entender. Reconhecer. Fase três. 

Essa é a a fase em que você começa a expandir esse campo de visão e perceber que, em vários momentos da sua vida que você sentiu dor, desconforto, medo, a sua fase um foi a fase final. Você não conseguiu sair dela. Ela foi tudo que você conseguiu atingir, seja pros seus planos, sonhos, relacionamentos. Você não conseguiu entender a frustração de um não, a fragilidade de um pedido de ajuda, mesmo que disfarçado de grosseria. Você sentiu uma dor tão grande (e aqui não cabe entendermos os porquês), que você precisava estancar. Você só precisava acabar com aquilo, de alguma forma e acabou. Você se afastou de pessoas por medo de conflitos. Você se afastou de lugares, por medo de gerar nos outros desconfortos com decisões que você precisava tomar para a sua vida. Você se afastou de você mesma, por medo de sua própria companhia. 

Acreditem, acontece muito.

O tempo passa e você vai acumulando essas “obras inacabadas”. São essas situações – pequenas ou não – em que você não conseguiu, de fato, concluir nada. Você simplesmente optou por se afastar porque algo lhe parecia mais real, mais tangível, mais importante do que qualquer outra coisa.

E essas tais obras, de tempos em tempos, te visitam. Te revisitam. Te tonteiam.

Há obras finalizadas. Mesmo que deixem a sensação de que não foram, foram.

Há outras que você vai precisar revisitar. E talvez reescrever.

Não tenha medo. Revisite.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

ATOTÔ

 

Fé, pra mim, sempre foi um tema bem complicado. Complicado no sentido de acreditar mesmo. Fui criada em escola católica, década de 80, aprendendo que Deus punia aqueles que não faziam exatamente o que Ele queria. Me apresentaram um Deus quase odioso, meio raivoso, que, segundo eles, pregava que tínhamos o tal do "livre arbítrio", mas que de livre não tinha nada porque, se o caminho que você escolhesse fosse desaprovado por Deus, você iria sofrer na eternidade do fogo do Inferno.

 Nunca consegui entender esse Deus que me disseram que existia.

Diziam também que esse mesmo Deus era amor e que tudo acontecia por vontade dele. E isso me assustava ainda mais. Como poderia Deus, onipotente, onipresente, onisciente, ver um filho sofrendo as mazelas da vida e permitir que isso acontecesse, se, também segundo os detentores da sabedoria divina, depois que morrêssemos, ficaríamos ao lado dele para todo sempre apenas se fôssemos merecedores? Merecedores? Como? Como se conquistava esse merecimento? Não era claro. Eu não entendia.

Mas eu cresci. Assim como minha consciência de mundo. E entendi que o Deus a quem se referiam não passava de um reflexo das crenças interiores de cada uma dessas pessoas. Entendi que o Deus cristão era diferente do que diziam que era. E também entendi que eu não cabia dentro da fé cristã, talvez de forma inconsciente porque nunca, de fato, parei para refletir a respeito de religiões e fé.

E foi lá pelos meus vinte e bem poucos anos conheci o espiritismo e suas variantes.

E, pra mim, tudo começou a fazer sentido. O quebra-cabeça das dúvidas começou a se encaixar.

Hoje, eu profiro minha fé das mais variadas maneiras. Eu rezo, canto, entoo mantras, jogo pro universo, emano raios, visualizo...

Mas é ELE, meu pai, quem me arrepia a alma. É ele que faz meu corpo estremecer, minhas pernas desobedecerem e me faz, inconscientemente, dançar.

É meu pai, meu protetor, meu grande amigo, meu alento nas horas de desespero e meu companheiro nas horas felizes.

Eu entendi minha fé e, hoje, estou em paz com ela. Hoje sei que minha fé vai muito além do clichê "fé é acreditar no que não se vê". Entendi que fé também requer maturidade. Entendi que fé é particular, encantada, serena e perene.

Hoje é dia de Atotô. Atotô quer dizer silêncio. Hoje é dia de silenciar a alma pra ouvir o coração. Porque foi lá que Jagun fez sua morada e é de lá que Jagun me mostra o caminho certo. Atotô quer dizer silêncio. Porque, quando você se cala, fica mais fácil de ouvir.

 

Atotô ajuberô.

 

Awure.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

A SAGA DA FAXINA

Sete horas da manhã. Acordei, olhei para a casa e pensei: Hoje é um belo dia para se fazer uma faxina. Foi uma vontade totalmente espontânea. Acreditem.

Comecei a faxina pelo meu quarto. Óbvio. Uma boa faxina deve começar pelo lugar onde você recarrega suas energias. Passei aspirador, troquei a roupa de cama e fui organizar o armário. Umas roupinhas fora do lugar. Nada demais. Dobrei as duas primeiras blusas e me deparei com uma blusa que eu tenho absoluta certeza que foi estrategicamente posicionada pelo demônio responsável pela desorientação das pessoas com TDAH. Olhei e pensei: será que ainda cabe?

Vesti e pensei: Vou olhar no espelho (que fica localizado no banheiro). Ao passar pela copa para entrar no banheiro, vi o cesto de roupa suja. Já separei umas roupinhas para lavar e me dirigi até a lavanderia a fim de colocá-las para bater. Claro, melhor colocar agora porque a máquina demora pra finalizar o ciclo.  Voltei para me olhar no espelho e passei pela porta do quintal. O cachorro pulou e fui fazer um carinho. Percebi que o quintal estava sujo e que a água deles estava no ponto de trocar.  Prontamente puxei a mangueira e fui lavar o quintal. E, ainda com a blusa (a que eu ia olhar no espelho se ainda cabia), pensei: melhor tirar a blusa porque está limpa e vai sujar. Tirei.

Lavei o quintal, catei as fezes caninas e percebi que a lâmpada do quintal estava queimada. Deixei a mangueira aberta e fui na copa para pegar uma lâmpada nova. Eu lembrei que a lâmpada estava queimada e comprei quando fui ao mercado. Uns três meses atrás. Tocou o celular. Era mamãe querendo saber do meu dia. Atendi e sentei no sofá da sala para falar com mamãe. Enquanto falava com mamãe, taquei um fone de ouvido e fui lavar a louça (para otimizar o tempo, afinal, é dia de faxina). A tampa de uma das panelas estava extremamente engordurada e cheia daquelas coisinhas pretas que ficam nos cantinhos mais perversos. Coloquei de molho do Cloro Vim que uso para desengordurar as coisas e fui procurar um bombril. Não tinha. Bora na mercearia da esquina. Passei no quarto e peguei outra blusa (a que eu tirei para colocar a que eu ia experimentar estava no chão, a que eu experimentei estava pendurada na porta do quintal) e saí.

Comprei o bombril, uma coca zero, alface, grão de bico (que não sei nem fazer), pão de forma integral, requeijão e rúcula. Voltei. E tudo isso com mamãe no telefone. Tirei a blusa e deixei em cima da mesa da sala. Fiz um sanduíche de rúcula com requeijão e sentei no sofá para comer. Depois fui terminar de desengordurar o raio da tampa da panela. Falando com mamãe surgiu o assunto "água" e CACETE! DEIXEI A MANGEIRA ABERTA. Fui no quintal para fechar a mangueira e terminei de arrumar as coisas. Botei água para os dogs e voltei para dentro de casa. A máquina tinha acabado de bater a roupa. Tirei toda a roupa de dentro da máquina e coloquei no varal de pé. Tocou o telefone. Mensagem do trabalho. Sentei no escritório para resolver o que me pediram às 11hs da manhã. 

01:25 da madrugada: Ainda estou aqui, no escritório, trabalhando.

 

E a casa?

Ah, amanhã eu termino.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

COISAS QUE ESCREVI PARA ELA

Não sei quanto tempo

Há na distância e no silêncio 

Mas meu eu desaprendeu

A ser eu sem você 

 

Não há um bom dia

Sem meu bom dia preferido

Não sei trilhar

Sem pensar na próxima trilha 

 

Há um eu em mim que se sabe por inteiro

Mas esse eu simplesmente não quer

Existir sem o teu. 

 

Volta pra casa que teu canto está vazio

Que eu quero voltar pro meu abraço casa

O lar que conheço e que simplesmente me faz

Sinto falta de ti, meu cheirinho de paz

 


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

ILUSÃO É PENSAR SEM CRIAR

No final de 2020 peguei COVID. Sei exatamente o dia que peguei, porque foi justamente na minha primeira aglomeração. Dia 02/11/2020. Fui fotografar. Precisava complementar minha renda porque sofri reduções salariais bruscas ao longo do ano da pandemia. Entretanto, independente do quanto meu salário tenha sido reduzido, eu nunca parei de produzir. Dava aula para 4 turmas por dia, de segunda a quinta. Gravava 16 vídeo aulas por semana, de turmas entre o segundo e o quinto ano. Essas eram as minhas principais funções. Dentre outras milhares de coisas que fazia. Na mesma semana que comecei os sintomas do COVID precisei faltar duas aulas, porque estava realmente me sentindo mal e também mandei um e-mail pedindo minha redução de função e de carga horária, tendo em vista que precisava, de fato, fazer outra coisa para que a grana entrasse e eu pudesse me sustentar novamente. Três dias depois, recebi um email suspendendo meu contrato de trabalho por ter causado prejuízos para a instituição devido as duas faltas da semana anterior.

EU ESTAVA COM COVID!

E foi assim mesmo! Por email. Distante. Seco. Frio. Feio.

Confesso que não me espantou porque, nos 3 longos anos que trabalhei lá, vi isso acontecer com outras pessoas. Digo longos porque, por nunca ter sido uma funcionária regular, eu vivia cada um dos minutos que ali estava. Chegava mais cedo que todos, saía mais tarde. Sempre. Dava aula no turno da manhã, gerenciava o que precisava gerenciar à tarde. Nunca hesitei em pegar meu carro e viajar de bate e volta para a Região dos Lagos para fazer reuniões, resolver problemas que, de fato, não eram meus. Fiz muito mais do que recebia para fazer e sempre fiz com gosto, porque meu trabalho nunca foi somente trabalho. Eu simplesmente amava o que fazia. Chegar na escola as 7 da manhã e ser recepcionada com aquelas carinhas pequenas e inchadas era o máximo! Meu combustível. Depois, mesmo exausta, mesmo sentindo dores que ninguém poderia dimensionar (porque não sou muito de falar do que sinto), eu voltava pro escritório e fazia tudo de novo, sempre pensando em apresentar melhores resultados. Sempre pensando em levar para os meus alunos e os alunos de tantas outras escolas o melhor que poderíamos dar. Lutei por uma causa que não era tão minha quanto achei que fosse. E fui descartada, como se nunca tivesse por ali passado.

Até agora não me encontrei em mim mesma. Não sei o que vai ser de mim quando anunciarem o retorno das aulas. Porque não era qualquer escola, era aquela escola. Não eram quaisquer alunos, eram aqueles alunos. Porque eu sou assim. Sou por inteiro onde quer que eu pise.

Estou recomeçando. Hoje numa carreira diferente. Aos 38 anos me pego na cadeira de aluna, aprendendo como fazer, como melhorar, como crescer. O tempo é cruel muitas vezes, mas dessa vez ele está sendo meu aliado. Porque, por mais que eu tenha passado por tudo que passei (e ainda estou passando), não me falta absolutamente nada. Não me falta um teto, comida, afeto, amor. Não me falta apoio daqueles que estão comigo pro que der e vier. Não me falta uma família que me auxilia, seja me ajudando a pagar as contas, seja me ouvindo lamentar, seja me incentivando porque estou emagrecendo e cuidando mais da minha saúde.

Esse desabafo não é um gesto de autopiedade, tampouco um desabafo de autolamentação. Na verdade é o oposto disso. É um desabafo de gratidão.

Gratidão ao Poder Superior por me mostrar, sempre, quem é quem. Por me manter intacta contra esse tipo de maldade, contra essa falta de humanidade. É de gratidão por ter na minha vida pessoas que me procuram só para saber como estou, se está pintando algum job, se está faltando alguma coisa. Por ter na minha vida seres humanos que são, muito mais do que precisam aparentar ser.

Não adianta ter um postura de compaixão com o próximo se não cuidar daqueles que estão ao seu lado. Cuide dos teus! Sempre!

Não to curada ainda. A dor de vez em quando me pega firme e me deixa pequenininha, querendo colo. Há dias que quero gritar, outros me enfio numa concha e só consigo pensar. Mudar de rumo requer uma bússola bem alinhada e a minha ainda não está.

E apesar disto, sou grata!


domingo, 3 de janeiro de 2021

PESADELO

Acordei e não consigo mais dormir. Deitei cedo, comecei hoje a ler um livro muito interessante indicado por uma pessoa muito interessante. Leitura sempre me faz dormir, então, ao terminar de ler o tanto que eu tinha determinado para esta noite, dormi. Acho que ainda nem era meia noite, o que tem se tornado uma novidade na minha vida desde os últimos acontecimentos profissionais. Acordei assustada com dois pesadelos interligados e totalmente diferentes. Em um deles eu estava vendo um arrastão acontecendo no condomínio que fui criada. Eu estava vendo pela janela os bandidos armados de fuzis assaltando pessoas que conheço, roubando seus pertences a matando desnecessariamente. Em algum momento do pesadelo eu estava em um taxi fugindo deste mesmo assalto/arrastão/chacina. Quando tudo se acalmou, voltei para o apartamento onde minha mãe mora – apartamento este que passei a maior parte da minha vida – e ela estava aflita porque ela havia deixado meus cachorros com uma grande amiga minha. Cachorros estes que foram embora da minha vida no ano passado devido a diversos problemas. No entanto, não pretendo revisitar este passado neste post.

Eu falava pra minha mãe – que tinha se safado do assalto/arrastão/chacina – que eu falaria com a minha amiga. De repente, como acontece nos sonhos, eu estava em um lugar que parecia um santuário de animais selvagens e estes cachorros estavam lá. Somente eles. E dois deles que brigavam muito e que foram o motivo de eu ter que, infelizmente, tirá-los da minha vida, estavam juntos, unidos e brincando. Eu falava com a minha amiga que aquilo seria potencialmente perigoso, tendo em vista que a relação deles sempre foi muito explosiva e as brigas muito feias. Separamos. Um dentro de uma grande jaula – grande mesmo – e o outro solto. Subitamente percebo que um deles estava tentando pular a jaula, que tinha uma grade verdadeiramente alta. Quando ele conseguiu, percebi que não era o cachorro – que tinha uma coloração amarelada. Era um leão. E este leão atacou prontamente o cachorrinho (que costumava ser bem manso quando não estava na presença deste com tom amarelado). Eu nada pude fazer. Virei de costas para não vê-lo sendo devorado, sentindo todos os músculos do meu corpo se tremerem como um papel em frente ao ventilador.

Acordei. Apavorada, tremendo e suando muito.

Sonhos representam bastante como estamos nos sentindo. E me sinto trêmula. Trêmula de medo de tudo que está por vir na minha vida justamente por estar, nesse momento, experimentando sensações bem novas.

Levantei, tomei um banho quente estilo escalda couro, comi uma tapioca com queijo coalho, requeijão zero e alho poró – amo, inclusive – e um copo de coca zero bem gelado. Já perdi 23 quilos dos 40 que ganhei, não posso vacilar. Estava com fome e não queria pegar meu carro e ir ao McDonald’s, como minha outra eu, 23 quilos mais gorda faria.

Voltei pra cama. Rolei, rolei e nada. Não consigo voltar a dormir porque estou com a sensação ruim que um pesadelo causa. To impressionada e com medo ainda. Por isso decidi escrever.

Eu sei que tudo na vida passa. Claro que passa. A dor diminui, os apegos mudam de direção, as verdades de hoje não são as mesmas de amanhã. Ou talvez sejam. Mas o fato é que sentir é o que me causa mais medo no momento. Sabe aquele almejo infantil de apertar um botão e eliminar tudo que você está sentindo?

Assim como meu processo de emagrecimento tem sido lento, calculado e constante, entrei em um modo de emagrecimento emocional. A auto sabotagem de antes hoje não me tomou. Só por hoje.

Por mais que a ferida esteja coçando, não vou retirar essa casquinha.

Vai cicatrizar.

sábado, 24 de outubro de 2020

AMOR DE CINEMA

 

Todo mundo sonha em viver uma grande história de amor. Daquelas dignas de filmes de Hollywood, onde, no fim da trama, o mocinho percebe que cometeu um terrível engano e se descobre completamente apaixonado pela mocinha. Então, a fim de impedir que ela embarque naquele avião, ele pega um táxi e se depara com a Oakland-Bay toda engarrafada. Preocupado em não chegar a tempo ao aeroporto, ele sai correndo e a vê de relance, pela janela de um táxi, que estava um pouco mais a frente. Ele abre a porta do carro e pede que ela não vá para Boston porque ele a ama. E faz o pedido de casamento em cima dos carros. Todos buzinam e aplaudem. 

Créditos.

Não desacredito que essas histórias existam. Mas fomos programados para acreditar que elas são tão corriqueiras que, certamente, em algum momento, acontecerá conosco. A frustrante realidade vem como uma tijolada pra nos mostrar que, por mais que acreditemos, não vai. Mesmo quando duas pessoas se conhecem ao acaso (vamos chamar de acaso o que acredito que seja destino – olha a crença do romantismo enraizada no discurso). A conexão é imediata porque elas duas viveram situações muito parecidas. Incontáveis coincidências que as levam a pensar que foram feitas em par. Tudo rola numa fluidez incrível. Tão leve que se torna perfeito! O elo entre as duas faz com elas entrem em outra dimensão quando veem o mundo uma pelo olhar da outra. As portas estavam abertas, iluminando todo o cômodo. Uma porta se fecha. A outra permanece escancarada.

Não conseguem se afastar por completo. E tudo aquilo parecia estar destinado para ser um grande amor – digno dos filmes de Hollywood – se torna um castelo pintado de azul e amarelo com cheiro de paz e foto do pôr-do-sol em frente ao mar. Um castelo chamado amizade.

Todos os indícios apontam que aquela amizade é apenas subterfúgio, um atalho driblar o medo de uma nova entrega, para aprender a lidar com os sentimentos que fogem ao alcance da compreensão. A vida as marcou com ferro em brasa, as feriu e essas feridas ainda estão abertas. Em uma delas já mais cicatrizadas, na outra, ainda em carne viva. Uma é o Sol. A outra, a Lua.

Uma paralisa com a certeza de que essa era a sua grande história de amor. Foi ela que não conseguiu fechar a porta. A tal história de amor vivia dentro da sua imaginação. E por essa certeza, aguardava detidamente esse despertar. Ela era a moça indo pro aeroporto.

A frustração da vida que a Oakland-Bay não estava engarrafada. Não tinha taxi. Não tinha Boston, nem pedido de casamento ao som de gritos e buzinas. Esse amor de cinema criado pelas suas crenças românticas enraizadas simplesmente não existia. 

E a vida é assim.

Créditos.

 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020


Ela é mãe. Daquelas leoas mesmo, sabe? Daquelas que, pelo tanto que é, sabe-se que nasceu para o tal trabalho. Ser mãe.
Ela, que acorda cedo, arruma, leva pra escola. Pega na escola, faz dever de casa, arruma a louça e faz a janta. Massa pro pequeno, salada pra maiorzinha. Mommy’s juice pros dois. Ela, que sabe o que eles gostam, como eles gostam e o que não gostam. Mas faz mesmo assim. Faz pra educar, educa para ser. Ela, que conta história, vê show, pergunta sobre a lição do dia. Ela, que fala em três idiomas, pra eles aprenderem a entender a raiz dos seus pais. Ela, que coloca pra dormir na mesma hora, todo dia, porque eles precisam de rotina. Ela, que me mata de orgulho por ter se tornado aquilo que eu jamais imaginaria. Que lindo de ver. Eu, expectadora, adoro passar as noites dentro da rotina dessa família que, por algum motivo, me sinto integrante.
Ela, que apenas é!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

NADA, NO MUNDO, JUSTIFICA GROSSERIA GRATUITA

Acho engraçada essa coisa de confundir o direito de falar o que quiser com a permissão de se falar como quiser. Real. Acho uma graça.
Intimidade é poder – no sentido de ter a possibilidade de -  falar o que quiser para uma outra pessoa – ou outras pessoas – sem medo de ser julgado, mal interpretado ou qualquer outro “ado” que te impeça, emocional e socialmente, de falar o que se deseja para qualquer um no meio da rua. Entre um grupo de amigos você pode, sem sombra de dúvidas, comentar sobre a silhueta de uma menina ou sobre a performance sexual de um ex-namorado – geralmente das ruins. O que não seria de bom tom se você fizesse com um estranho na fila do mercado.
Intimidade também é você saber com quem você pode falar sobre determinados assuntos. É você conhecer o olhar do seu amigo quando você fala algo que o desagrada. É ter a liberdade de discutir sobre um assunto muito mais do que ferozmente e, no segundo seguinte, chamar o coleguinha para tomar aquela gelada. Intimidade é a liberdade de ser ao lado de quem você quiser. Duas pessoas se tornam íntimas apenas depois de certo tempo de convivência. Isso vale para relação amorosa, afetiva, fraternal, de amigos. Qualquer relação precisa de certo tempo de convivência para que se torne íntima o suficiente a ponto de conhecer um olhar, um tom de voz ou uma ausência.
Há pessoas que entram nas nossas vidas, passam anos ao nosso lado e não se tornam íntimas. Há outras que, com poucos meses de amizade, se tornam tão parte de nós que, por um instante, acabamos esquecendo que a relação começou a pouco mais de alguns meses.
Intimidade é feita de tempo. Tempo ao telefone, tempo trocando mensagens, trocando história. Tempo de risadas, choro, discussão. Tempo de história pra contar, história mal contada, tempo de história vivida ou não. Torno a falar: seja em qualquer campo dos relacionamentos, a intimidade é trazida com o tempo. O sentimento não. Paixão, amor, tesão ou a simples vontade de estar perto vem através de algo que, honestamente não sei explicar. Sentimento não se explica. Intimidade sim. Muitas vezes a magnitude de um sentimento faz com que você conviva mais com aquela determinada pessoa e, assim, a intimidade acontece mais rapidamente. Conhecer outra pessoa requer vontade. Requer tempo. Requer.
Uma coisa muito importante é que, independente do grau de intimidade que tenhamos com qualquer pessoa, nada, no mundo, justifica grosseria gratuita.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019


Eu já tive tantos medos nessa vida. Medos assim mesmo, no plural. Medo mesmo. Medo de envelhecer sozinha, medo de escuro, medo de tomar banho sozinha em casa, medo de acordar de madrugada e estar passando um filme de terror na televisão, medo de magoar as pessoas, medo de causar sofrimento de qualquer maneira em outro ser humano. Há anos venho tentando combater esses medos, todos eles, um por um, de acordo com a sua complexidade.
Pra não acordar no meio da madrugada e me deparar com um filme de terror, durmo sempre vendo a mesma coisa, ou coloco a TV no timer ou simplesmente a desligo antes de pegar no sono. Pra não ter medo de tomar banho quando estou sozinha em casa, coloco Grey’s Anatomy no celular, dentro do box. Há medos que consegui resolver. Outros, ainda luto.
Invariavelmente vamos magoar alguém. Infelizmente, com o pesar da palavra. Por mais que não queiramos, por mais que tentemos não fazê-lo. As expectativas que o outro cria sobre nós independe da nossa vontade. E quando não atingimos a plenitude dessas expectativas, pronto!
Não podemos e não devemos nos sentir culpados por isso. (venho tentando ferrenhamente).
Da mesma maneira acontece com os nossos sentimentos. Quando nos pegamos envolvidos em um sentimento que vive apenas na nossa imaginação, a culpa não é do coleguinha. Aprender a se deliciar com esse sentimento depende do grau de maturidade que atingimos.
Ouvir uma música, lembrar de um sorriso e não sofrer com isso, porque a distância entre esse sorriso e a sua vida é enorme depende apenas da seu entendimento sobre as expectativas que você cria. Não cria-las é utopia. Criá-las e saber viver com elas é a meta.
Meus medos são meus e vivo bem com eles. Assim como  também vivo imensamente feliz com as expectativas que crio. Apenas fique.


Queria aprender a falar de você muito menos superficialmente do que sei. E olha que tudo que eu sei já me é suficiente para que eu não sinta nada além do seu sorriso. Sabe, quando você fica tímida e seu sorriso e seu olhar ficam meio sem direção. E você logo trata de fazer uma piada para se soltar daquela situação desconfortável. Também tem os momentos que você foge daquilo que possivelmente te fará perder o controle. Então você não responde mensagens, não liga, não procura, por mais que você queira passar algumas boas horas se entregando para aquilo que, para você, não faz o menor sentido. O novo te assusta porque você aprendeu a viver de forma confortável, envolvida por uma segurança bege, evitando, assim, qualquer coisa que possa te fazer sentir mais do que você gostaria. Sua intensidade é disfarçada de uma sobriedade discrepante. Você é terra e fogo. Você é perfeita, do jeito que é. Insegura, desconfiada e um porto. Uma tromba d’água disfarçada de rio. Uma correnteza forte, daquelas que levam até os mais seguros a se sentirem como adolescentes descobrindo a vida. Seus olhos escondem sofrimentos que só os que querem te conhecer enxergam verdadeiramente. Sua beleza óbvia é inegável. Simetria define seu rosto. Entretanto, há muito mais. Sua simetria transcende os traços físicos. A forma como você se importa é o que faz toda a diferença. Não é só beleza, é a maneira como você sobe a tela do celular com a lateral do dedo. É a maneira que você se senta pra dirigir. É o anel no indicador, a unha que combina com a mão, a mão que com a minha. É a voz encantadora. É o teu estar. Permanecer. É tudo que eu vejo, como eu vejo. É muito mais o meu prisma do que o teu ser.
Era pra ser. 


sábado, 26 de outubro de 2019

DIÁRIO DAS COMPULSÕES - 26/10/2019


Rio de Janeiro, 26 de Outubro de 2019

Todo ser humano vive, trabalha e se vira para suprir suas necessidades. Sejam elas materiais, emocionais, afetivas, sexuais... todo mundo gira em torno daquilo que quer, que precisa - ou que acha que precisa. Isso é, na maioria das vezes, saudável. Dá um gás legal pra gente correr atrás, pra gente se animar a fazer algo. Todo mundo quer ser, quer ter. Seja compulsivo ou não. Sendo compulsivo, a coisa muda um pouco de figura. Todo compulsivo precisa, de fato, suprir suas compulsões de alguma maneira, se não a coisa toma uma proporção surreal e a gente acaba fazendo mais merda do que faria se tivesse feito o que tinha que fazer lá no começo. Na grande maioria das vezes, essa compulsão nos leva para lugares que, definitivamente, não gostaríamos de estar. Principalmente porque quando você verbaliza e se assume como compulsivo, as pessoas já passam a te olhar com cara de medo. Claro, lidar com uma doença mental é algo inadmissível.

Parem. Apenas parem.

O transtorno obsessivo compulsivo atinge cerca de 2,5% da população mundial e é uma coisa até bem comum. Principalmente porque às vezes somos compulsivos e não sabemos. Eu sei que sou. Eu assumo que sou e isso não me afeta em nada. Na verdade só me afeta por conta do vício do cigarro. Vou falar disso agorinha mesmo.

Eu tenho TOC há muitos anos. Sempre tive, eu acho. No começo era engraçado e eu levava na brincadeira, como de costume. Teve uma época que deixou de ser e acabei com manias muito complicadas, como, por exemplo, tocar em todas as maçanetas de um corredor. Ou usar a meia do pé esquerdo do avesso. Meus amigos que passaram isso comigo sabem bem.  Depois de anos de tratamento a coisa se assentou e não tenho mais episódios tão característicos como repetir movimentos, ou usar a meia do pé esquerdo do avesso. Mas eu fumo. E bastante.

Tenho 37 anos, fumo desde os 11 anos de idade. Você não leu errado. Acho que fumar era moda na década de 90. Enfim, uma coisa levou a outra e eu me tornei fumante. Daquelas brabas. Já cheguei a fumar 3 maços de cigarros por dia.
Há mais ou menos 6 anos venho lutando contra esse vício de forma acirrada. Parei a primeira vez com o susto de um possível câncer de mama – na verdade existia um tumor, não cancerígeno, no meu útero e no meu ovário. Histerectomia e ooforectomia. Fiz uso de um recurso mundialmente conhecido: os famigerados adesivos de nicotina. Olha, desconheço época que eu tenha me tornado um ser humano mais horrível. Eu dormia e acordava pensando em fumar. Eu vivia pensando em fumar. Eu sonhava com o cigarro. 8 meses depois, achando que o vício estava dominado, recaí. A vergonha de fumar era enorme, mas não maior que o vício. Permaneci fumando mais 2 anos, quando comecei a ter algumas bolinhas estranhas na garganta. Confesso que sofro de uma leve hipocondria. Fiquei apavorada com as bolinhas e comecei a reparar no cheiro, no gosto e na grana que eu tava gastando. Apelei novamente para os adesivos, só que dessa vez fiz uso de um ansiolítico que ameniza os sintomas da abstinência. Olha, dessa vez foi beeeem mais tranquilo. Comecei a tomar o remédio e continuei fumando. Só poderia parar, de fato, quando o remédio começasse a fazer efeito, ou seja, em torno de 20 dias depois de começar a tomar. Combinei comigo mesma que, depois dos 20 dias, se meus cigarros acabassem num domingo depois das 18hs, eu não compraria novamente. Domingo, dia 21/01/2018 percebi, às 19:25 que fumaria meu último cigarro. E assim o fiz. No dia seguinte saí para trabalhar, passei numa farmácia, comprei os maledetos adesivos e segui minha jornada. Foram mais 8 meses. Maldição de 8, só pode ser. Recaí, mais uma vez, e voltei a fumar. Dessa vez eu voltei consciente de que tinha sido uma derrapada e que eu pararia novamente.
Bom, há 15 dias comecei a tomar o medicamento. Comprei minhas primeiras duas caixas de adesivo hoje, com previsão de chegada na terça-feira. Essa semana paro novamente. Quando chegar nos 8 meses, vou ficar trancada em casa longe de fumantes porque, vou te falar, ô coisa difícil é essa de ter um vício tão disponível quanto o do cigarro.
Amanhã conto mais do que eu to sentindo.

Beijo grande!

Ludmilla.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Encontrar a paz é a meta de todo mundo. Bom, pelo menos esse é o meu entendimento do que é ser humano. Caso você não se enquadre nisso, faça a gentileza de fechar essa página. Encontrar a paz... deixa eu voltar ao ponto - e certamente me perderei de novo em diversos pensamentos que insistem em me atormentar. Espera aí, deixa eu virar o ventilador porque está batendo bem na minha cara. Encontrar a paz é algo muito relativo e deveras pessoal. Há casos onde encontra-se sem buscar. Há casos que somos bem-sucedidos na busca. Há dias como hoje.

Hoje tive um dia daqueles que dá vontade de parar tudo, voltar pra casa, ligar o bendito ventilador - pro alto, porque odeio vento direto na minha cara - e dormir até o dia passar. Acordei cedo com o peso do mundo nas costas por conta de uma noite extremamente mal dormida. Sempre tenho noites ruins quando estou envolvida num projeto que ainda não acabou. Acordei e tive que tomar banho gelado porque a resistência do chuveiro desistiu de viver na noite anterior. Eu deveria ter entendido o sinal amarelo: banho gelado de manhã cedo não combina em nada com a minha pessoa. 

Admiro demais quem consegue. Troquei de roupa e fui trabalhar. Trânsito incrivelmente liberado - uma coisa boa para compensar o banho gelado. Cheguei no escritório, tomei meu café da manhã e iniciei minha LISTA DE AFAZERES de toda manhã. Abri meu projeto - projeto esse onde, diversas vezes, me sinto o Bastian voando no lombo do Falkor - e comecei a pensar. Diversos problemas surgiram no meio do caminho que me impediram de seguir - Bastian e Falkor total. Tive que dar uma saída rapidinho pra resolver um problema com a Light. Mal sabia que meu inferno astral estaria começando naquele momento. Trânsito. Blitz. Trânsito. Cheguei no bendito shopping na Zona Norte do RJ, palco de uma enchente que matou pessoas afogadas no estacionamento há alguns anos. Gives me the creeps. Subi, enfrentei uma fila imensa e, ao chegar ao guichê, fui absurdamenta mal atendida pela tal responsável pela loja. Esta, com cara de quem está com um tolete de cocô entubado no nariz, me disse que eu teria que resolver na central telefônica. Dias antes a central telefônica me informou que eu deveria comparecer a uma loja física. Daí tu pode tacar a conta pro alto e deixar pra lá? Não, claro que não. Você faz cara de quem engoliu baba de trasgo, respira fundo e sai da loja excomungando a nona geração do infeliz do marcador de luz que decidiu arbitrariamente juntar 4 meses de contas pra você pagar de uma vez. Então eu resolvi ligar pro meu advogado, pedir orientação e caminhar pro meu carro, a fim de sair daquele shopping que, de tão mal assombrado, nem praça de alimentação tem. E obviamente eu estava VARADA de fome.
Entre estacionar e voltar pro carro levei exatos  11 minutos. ONZE FUCKING MINUTOS. Quando fui passar na cancela da entrada do shopping para pagar, ouvi aquela voz suave me dizendo as palavras que eu, em alguns segundos, temeria ouvir:
- SÃO QUATRO REAIS, SENHORA!
- Deixa eu pegar minha... CADÊ MINHA CARTEIRA?
Quem me conhece sabe que não tenho uma boa relação com a minha carteira. Não chega perto da péssima relação que tenho com as chaves do meu carro. A diferença é que a chave tilinta - finge que cabe, tá? Eu adoro o verbo tilintar. Me lembra minha vó.
- AMIGA, DEU RUIM! ESQUECI MINHA CARTEIRA.
- SÓ UM MINUTINHO SENHORA, PRECISO CHAMAR O SEGURANÇA PRA ABRIR A CANCELA.
Fiquei calma. Me deparei com um sujeito de praticamente dois metros de altura. Um NOJO. Faltou me mandar levantar minha bunda gorda do carro e procurar um banco que aceitasse minha biometria. Eu acho que, na verdade, ele estava pensando que eu queria dar um calote. QUATRO REAIS, MINHA GENTE. QUATRO REAIS!
Subi cuspindo mais fogo que a Saphira, do Eragon. Entrei na administração e, dada a quantidade de palavrões que meu cérebro estava processando, minha boca não consegui falar nada em português. Naquele momento eu falava uma mistura de carioquês engasgado com toques de MANO-VOCÊ-NÃO-SABE-O-DIA-QUE-EU-TO-TENDO. O moço da administração tirou a carteira gentilmente do bolso, sacou os maledetos quatro reais e me entregou sob a condição de não tacar as duas notas de dois dentro da cueca do segurança;
Me contive. Fui embora. Por fora, sorriso insolente. Por dentro, gritos tão pavorosos que poderiam ser ouvidos do palco do Rock in Rio durante um show.
Voltei pro escritório. Cada músculo do meu corpo estava tremendo como se tivesse acabado de correr uma maratona inteira, tomando Red Bull.

Como eu encontrei minha paz?
Não encontrei. Por isso que são 1:16 da manhã e eu ainda estou escrevendo.

(força, ícone).

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

SOL DE INVERNO


Meu maior sonho era ser inverno.
Não entendo porque nasci verão
Nasci um calor que sente frio
Cresci no sol de um escuro vazio

Oh! Doce sol
Me deixa escurecer
Me permita ser nuvem
Nevar ao entardecer

Não quero mais sentir esse calor
Quero trocar esse biquíni por um cobertor.
Vem, inverno, tá na hora de ser.
Vem, inverno, vem pra me aquecer.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

2018


Foi um ano de transição. Transitei entre o ser e o não ser. Entre o ter e o não. Entre o querer e não querer. Transitei em diversos sentidos. Transitei entre diversos mundos.
Conheci mundos que achava que não existiam, conheci mundos onde me encontrei. Conheci sorrisos verdadeiros, pueris, ingênuos. Conheci a nata da maldade e não me contaminei.
E de tanto transitar, entendi que esse é o meu lugar. Não sei ficar parada, não sei deixar rolar. Não sei, ao certo, o que é ser. Ser é estar e permanecer? Ser é passar? Não sei.
Entendi o sentido da gratidão. E sou grata por muito. Inclusive sou grata pelo que serei, porque sim, ainda estou em trânsito. E a melhor das descobertas: não quero parar.

Feliz 2019!


NÃO TEM COMO PARAR

Ando descobrindo muitas coisas nessa tal de vida adulta. Que é difícil, todo mundo sabe. Mas pra uma pessoa neurodivergente o troço se embol...