sábado, 4 de abril de 2026
NÃO TEM COMO PARAR
quarta-feira, 30 de abril de 2025
TCHAU, RITA. BEM-VINDO, VENVANSE.
Há
um tempo meu corpo vem reclamando de algumas coisas. Do cigarro, do peso, do
tratamento mal feito que eu tenho seguido para o TDAH. Como assim tratamento
mal feito? Vou explicar. Há anos eu estava me tratando com uma neuro. O
consultório dela era deveras longe da minha casa (pra não falar que ficava na
olhota do Recreio dos Bandeirantes). E consultório longe não é nada
convidativo, né? Mas eu ia. Só que, um belo dia, ao ligar para marcar a
consulta, fui informada que ela não aceitaria mais nenhum plano de saúde (e que
se foda os pacientes antigos). Fiquei puta, mas falei: vou procurar outro
neuro.
DU-VI-DO
vocês acertarem o que aconteceu?
Pois
é. Quase 10 anos depois, eu continuava tomando meu medicamento controlado,
autoprescrito. Comprando no mercado clandestino dos medicamentos controlados.
Sem horário. Sem rotina. Sem educação.
Só
que meu corpo reclamou. Enxaqueca absurda e frequente, dor no maxilar, coração
eternamente acelerado. Irritabilidade e agressividade na ponta de uma resposta
torta. Zero tolerância pra tudo: frustração, cansaço, pessoas...
Eu
sabia que era do remédio. E sabia que a Rita, que há muito me acompanhava nessa
minha vida louca, ultimamente, estava me fazendo mais mal do que bem. Picos
muito fortes e rebotes muito intensos. Zero equilíbrio.
Então,
finalmente, coloquei ação e concluí uma das metas inacabadas: encontrei uma
neuropsiquiatra.
Eu
sempre tive medo de tomar Venvanse. Tava acostumada com a Rita, já tinha meus
horários bem definidos com ela. Sabia que podia tomar um comprimido a mais,
caso precisasse estender meu horário de trabalho. Sabia que podia não tomar,
caso não tivesse disponível. Sabia que o preço era acessível.
E
qual foi a primeira coisa que a médica fez? Sim, ela trocou a Rita pelo
Venvanse. Lisvenx, pra ser mais exata. Primo do Venva.
Sabe
qual é o meu único arrependimento? Não ter ido ao médico antes. Que sensação
maravilhosa essa tal de linearidade. Que sensação incrível é não passar o dia
inteiro dormindo um cadinho e acordando. Que sensação incrível essa de dormir
de verdade à noite e acordar bem. Produtividade fluindo da maneira que deve ser
para um adulto funcional.
Eu
sei que remédio não faz milagre. Mas olha... to quase canonizando o Venvanse. E
a Risperidona também. Ela também tem seu valor.
Tratamento
de TDAH é coisa séria. Se você não consegue sozinho, peça ajuda. Converse com
os seus. Mas faça. Trate. Cuide.
Agora
vou lá terminar meu trabalho porque tenho hora pra tomar a Risperidona e,
depois dela, mais ninguém.
(AUTOMEDICAÇÃO NÃO É LEGAL. ESTE POST NÃO É PROPAGANDA DE REMÉDIO. SÃO IMPRESSÕES DE UMA NEURODIVERGENTE DESCOBRINDO QUE A VIDA NÃO PRECISA SER TÃO DOLOROSA)
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
TDAH E FRUSTRAÇÃO
Hoje em dia, percebo
um aumento significativo nas pessoas que alegam ter TDAH. Não desacredito,
óbvio. Bem como não entendo o “orgulho” de verbalizar para o mundo que tem
TDAH.
TDAH é um transtorno
extremamente difícil. Em vários aspectos. A dificuldade de lidar com diversas
coisas é tão latente, que me faz, de fato, questionar se as pessoas entendem o
que é o TDAH.
Mas hoje vou falar da
frustração, que, honestamente, é a parte mais difícil para mim.
Essa semana, por
algum motivo que desconheço, derrubei uma panela inteira de feijão no chão.
Meio quilo de feijão fresquinho, ainda morno, desperdiçado.
Não sei se foi
macumba, se foi minha coordenação motora um tanto quanto falha. Só sei que
CATAPLOF. Feijão pra tudo que é lado. E quando digo isso, estou falando de
feijão nas paredes da sala, debaixo da geladeira, dentro do freezer – que
estava fechado – e no meu corpo todo. Um banho de feijão, literalmente.
Para uma pessoa
neurotípica – pessoas neurotípicas são aquelas que não tem quaisquer
transtornos como TDAH, TEA... – derrubar o feijão seria apenas cansativo e
irritante. Você desperdiçou o feijão e ainda vai ter que limpar tudo, certo?
Pois é. Quer saber como foi para mim? Uma pessoa com TDAH? Vou tentar
descrever.
Sabe quando você tá
correndo na praia, areia muito fofa e muito quente e falta muito pra você
chegar na calçada? Então... mistura isso com aquela vontade de fazer xixi que
chega a doer a bexiga no momento que você não encontra a chave de casa. Agora
pega esses dois aí e coloca junto com aquele pernilongo que pica a cabeça do
seu dedo mindinho às 4 da manhã. Depois que você misturou tudo, insere a
sensação de ter perdido seu celular. Ah! E também a sensação de uma crise
alérgica muito forte, que deixa o seu corpo todo coçando.
A frustração, EM MIM,
uma pessoa com TDAH, é simplesmente exaustiva. A parte mais difícil de lidar.
Ela me tira todas as forças para viver. Eu preciso de muito tempo para me
regular. Para voltar a raciocinar. Para deixar de sentir uma dor que nem tudo
isso que eu citei acima descreve com exatidão. A frustração, dependendo da
situação, me deixa agressiva, introspectiva, deprimida, dolorida. Totalmente
desregulada. Cansada. Exausta.
Mas Lud, foi só um
feijão?
Para muitos, sim.
Para mim, não foi.
Foi o rótulo de
desastrada. Foram as críticas vitalícias a respeito da forma como eu faço as
coisas. Foi o cansaço de ter que faxinar a cozinha que a minha namorada tinha
acabado de faxinar. Foi a autocrítica. Foi o desperdício de comida. Foi a
sensação de que eu realmente não sei fazer nada direito.
Hoje, no auge dos
meus 42 anos, entendo que preciso me regular. Entendo que não posso passar o
resto da vida deitada na cama, vendo série pra desopilar.
O que eu fiz?
Falei pra Sil que não precisava me ajudar. Eu queria fazer sozinha, como num ritual de auto perdão e autocompreensão. Coloquei The Big Bang Theory no celular. E fui, lentamente, catando, jogando água, me perdoando, me aceitando.
Limpei todos os cantos que consegui ver, porque já eram quase 3h da madrugada. Limpei toda a geladeira, incluindo o freezer. Tirei cada peça, passei água, detergente e bactericida.
Terminei. Sentei no
sofá da sala, joguei uma partida de xadrez fumando um cigarro. Fui dormir e
pensei:
POIS É. AMANHÃ VOU
TER QUE FAZER FEIJÃO.
Consegui me regular?
Não.
Mas sobrevivi.
E já vou botar o
feijão de molho.
domingo, 19 de janeiro de 2025
ESTE NÃO É UM VÍDEO DIVERTIDO DE 30 SEGUNDOS
Percebo que, hoje em dia, as pessoas não se acanham ao dizer
"não gostam de pessoas". A frase vem sempre vinculada a um sorriso
cheio de orgulho.
Eu mesma já verbalizei esse sentimento diversas vezes.
Você já parou pra pensar que isso pode estar diretamente atrelado ao fato de que seu cérebro está virando uma massa com utilidade limitada porque a convivência humana que não te oferece uma catarse, uma enxurrada de dopamina a cada 15 / 30 / 90 segundos?
A dopamina é um neurotransmissor responsável por levar informações para várias partes do corpo e, quando é liberado provoca a sensação de prazer e aumenta a motivação. Essa parte eu pesquisei no Google. Mas a partir de agora eu tirei a opinião de dentro do meu orifício anal, ok? Nem precisa ler se não quiser.
Beleza, se liga no raciocínio.
Um filme tem, em média, 2hs de duração, certo? Durante um filme, você cria expectativa de que algo vá acontecer. E acontece. Uma, duas, três coisas. No máximo. Exageremos, pra ilustrar. 10 coisas. Num filme de 2 horas de duração, 10 coisas acontecem. Essas coisas aumentam a sua dopamina, tá?
Quantos 30 segundos cabem dentro de um filme? 240.
Isso mesmo que você leu. 240.
Ou seja, se você passar duas horas vendo vídeos de 30 segundos, sua dopamina vai aumentar 240 vezes.
Dá pra comparar com um filme? É o mesmo tempo, mas não dá.
Se isso que eu falei está certo ou não, eu não sei. Não
tenho embasamento científico para comprovar a veracidade das minhas palavras. O
embasamento que eu tenho é pessoal. Experimental. Intransferível.
Demorei para entender. Demorei para aceitar que as redes sociais estavam destruindo justamente uma característica minha que sempre foi tão aflorada: a sociabilidade.
Crises contínuas de ansiedade. Depressão. Insônia num dia, excesso de sono no outro. Baixa tolerância a frustração. Uma tristeza profunda. Medo de sair de casa. Medo de encontrar com as pessoas, de passear. Medo.
Coisas que só amenizavam, um pouco, com aquele meme engraçado ou com vídeos de pessoas levando susto.
Demorei pra enxergar, mas enxerguei.
E to me libertando.
Este não é um vídeo divertido de 30 segundos.
sexta-feira, 15 de novembro de 2024
CARTA PARA NALA
Oi, Naleta.
Quarta fez uma semana que você se foi. Hoje acordei sentindo
uma saudade esmagadora no meu peito. Fui lá no canil ver seu irmão, mas ele ainda
tá com dificuldades para comer. Vou levar ele na tia vet.
Ele fica o tempo todo deitado no mesmo lugar que você dormiu
pela última vez. É, filha... ele tá com muita saudade de você.
Sabe filha, eu to naquela fase em que eu to me perguntando
se eu poderia ter feito alguma coisa. Por que você não chorou? Não latiu? Não
me chamou? Você só deitou e dormiu, filha. A mamãe ainda tá muito confusa e
sentindo uma dor do tamanho do mundo.
Eu quero que você saiba, filha, que eu te amei intensamente.
Você era sim minha filha. Você é. E sempre vai ser.
Eu espero, de coração, que você esteja bem. Que esteja
feliz, brincando com a sua irmã Pérola e com “suplimo” Huffos.
Ainda não acredito que vocês dois se foram.
Por enquanto, filha, eu ainda não consigo sequer pensar em você
sem chorar. Essa ferida ainda tá sangrando. Eu to tentando ficar de boa, você sabe
como eu sou. Não sou de falar dessas coisas. Mas confesso pra você que tem sido
bem difícil.
Amo você. E sinto sua falta. Todos os dias.
domingo, 8 de setembro de 2024
A GRANDE ENGENHEIRA DAS OBRAS INACABADAS
sexta-feira, 16 de agosto de 2024
ATOTÔ
Fé,
pra mim, sempre foi um tema bem complicado. Complicado no sentido de acreditar
mesmo. Fui criada em escola católica, década de 80, aprendendo que Deus punia
aqueles que não faziam exatamente o que Ele queria. Me apresentaram um Deus quase
odioso, meio raivoso, que, segundo eles, pregava que tínhamos o tal do "livre
arbítrio", mas que de livre não tinha nada porque, se o caminho que você
escolhesse fosse desaprovado por Deus, você iria sofrer na eternidade do fogo
do Inferno.
Diziam também que esse mesmo Deus era amor e que tudo acontecia por vontade dele. E isso me assustava ainda mais. Como poderia Deus, onipotente, onipresente, onisciente, ver um filho sofrendo as mazelas da vida e permitir que isso acontecesse, se, também segundo os detentores da sabedoria divina, depois que morrêssemos, ficaríamos ao lado dele para todo sempre apenas se fôssemos merecedores? Merecedores? Como? Como se conquistava esse merecimento? Não era claro. Eu não entendia.
Mas eu cresci. Assim como minha consciência de mundo. E entendi que o Deus a quem se referiam não passava de um reflexo das crenças interiores de cada uma dessas pessoas. Entendi que o Deus cristão era diferente do que diziam que era. E também entendi que eu não cabia dentro da fé cristã, talvez de forma inconsciente porque nunca, de fato, parei para refletir a respeito de religiões e fé.
E foi lá pelos meus vinte e bem poucos anos conheci o espiritismo e suas variantes.
E, pra mim, tudo começou a fazer sentido. O quebra-cabeça das dúvidas começou a se encaixar.
Hoje, eu profiro minha fé das mais variadas maneiras. Eu rezo, canto, entoo mantras, jogo pro universo, emano raios, visualizo...
Mas é ELE, meu pai, quem me arrepia a alma. É ele que faz meu corpo estremecer, minhas pernas desobedecerem e me faz, inconscientemente, dançar.
É
meu pai, meu protetor, meu grande amigo, meu alento nas horas de desespero e
meu companheiro nas horas felizes.
Eu entendi minha fé e, hoje, estou em paz com ela. Hoje sei que minha fé vai muito além do clichê "fé é acreditar no que não se vê". Entendi que fé também requer maturidade. Entendi que fé é particular, encantada, serena e perene.
Hoje é dia de Atotô. Atotô quer dizer silêncio. Hoje é dia de silenciar a alma pra ouvir o coração. Porque foi lá que Jagun fez sua morada e é de lá que Jagun me mostra o caminho certo. Atotô quer dizer silêncio. Porque, quando você se cala, fica mais fácil de ouvir.
Atotô
ajuberô.
Awure.
quinta-feira, 16 de junho de 2022
A SAGA DA FAXINA
Sete
horas da manhã. Acordei, olhei para a casa e pensei: Hoje é um belo dia para se
fazer uma faxina. Foi uma vontade totalmente espontânea. Acreditem.
Comecei
a faxina pelo meu quarto. Óbvio. Uma boa faxina deve começar pelo lugar onde você
recarrega suas energias. Passei aspirador, troquei a roupa de cama e fui organizar
o armário. Umas roupinhas fora do lugar. Nada demais. Dobrei as duas primeiras
blusas e me deparei com uma blusa que eu tenho absoluta certeza que foi
estrategicamente posicionada pelo demônio responsável pela desorientação das
pessoas com TDAH. Olhei e pensei: será que ainda cabe?
Vesti
e pensei: Vou olhar no espelho (que fica localizado no banheiro). Ao passar
pela copa para entrar no banheiro, vi o cesto de roupa suja. Já separei umas
roupinhas para lavar e me dirigi até a lavanderia a fim de colocá-las para
bater. Claro, melhor colocar agora porque a máquina demora pra finalizar o ciclo.
Voltei para me olhar no espelho e passei
pela porta do quintal. O cachorro pulou e fui fazer um carinho. Percebi que o
quintal estava sujo e que a água deles estava no ponto de trocar. Prontamente puxei a mangueira e fui lavar o
quintal. E, ainda com a blusa (a que eu ia olhar no espelho se ainda cabia),
pensei: melhor tirar a blusa porque está limpa e vai sujar. Tirei.
Lavei
o quintal, catei as fezes caninas e percebi que a lâmpada do quintal estava
queimada. Deixei a mangueira aberta e fui na copa para pegar uma lâmpada nova.
Eu lembrei que a lâmpada estava queimada e comprei quando fui ao mercado. Uns
três meses atrás. Tocou o celular. Era mamãe querendo saber do meu dia. Atendi
e sentei no sofá da sala para falar com mamãe. Enquanto falava com mamãe,
taquei um fone de ouvido e fui lavar a louça (para otimizar o tempo, afinal, é
dia de faxina). A tampa de uma das panelas estava extremamente engordurada e
cheia daquelas coisinhas pretas que ficam nos cantinhos mais perversos.
Coloquei de molho do Cloro Vim que uso para desengordurar as coisas e fui
procurar um bombril. Não tinha. Bora na mercearia da esquina. Passei no quarto
e peguei outra blusa (a que eu tirei para colocar a que eu ia experimentar estava
no chão, a que eu experimentei estava pendurada na porta do quintal) e saí.
Comprei o bombril, uma coca zero,
alface, grão de bico (que não sei nem fazer), pão de forma integral, requeijão
e rúcula. Voltei. E tudo isso com mamãe no telefone. Tirei a blusa e deixei em
cima da mesa da sala. Fiz um sanduíche de rúcula com requeijão e sentei no sofá
para comer. Depois fui terminar de desengordurar o raio da tampa da panela.
Falando com mamãe surgiu o assunto "água" e CACETE! DEIXEI A MANGEIRA
ABERTA. Fui no quintal para fechar a mangueira e terminei de arrumar as coisas.
Botei água para os dogs e voltei para dentro de casa. A máquina tinha acabado
de bater a roupa. Tirei toda a roupa de dentro da máquina e coloquei no varal
de pé. Tocou o telefone. Mensagem do trabalho. Sentei no escritório para
resolver o que me pediram às 11hs da manhã.
01:25 da madrugada: Ainda estou
aqui, no escritório, trabalhando.
E a casa?
Ah, amanhã eu termino.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
COISAS QUE ESCREVI PARA ELA
Não sei quanto
tempo
Há na distância e no
silêncio
Mas meu eu
desaprendeu
A ser eu sem
você
Não há um bom dia
Sem meu bom dia
preferido
Não sei trilhar
Sem pensar na próxima
trilha
Há um eu em mim que
se sabe por inteiro
Mas esse eu
simplesmente não quer
Existir sem o
teu.
Volta pra casa que
teu canto está vazio
Que eu quero voltar
pro meu abraço casa
O lar que conheço e
que simplesmente me faz
Sinto falta de ti,
meu cheirinho de paz
terça-feira, 12 de janeiro de 2021
ILUSÃO É PENSAR SEM CRIAR
No final de 2020 peguei COVID. Sei
exatamente o dia que peguei, porque foi justamente na minha primeira
aglomeração. Dia 02/11/2020. Fui fotografar. Precisava complementar minha renda
porque sofri reduções salariais bruscas ao longo do ano da pandemia. Entretanto,
independente do quanto meu salário tenha sido reduzido, eu nunca parei de
produzir. Dava aula para 4 turmas por dia, de segunda a quinta. Gravava 16
vídeo aulas por semana, de turmas entre o segundo e o quinto ano. Essas eram as
minhas principais funções. Dentre outras milhares de coisas que fazia. Na mesma
semana que comecei os sintomas do COVID precisei faltar duas aulas, porque
estava realmente me sentindo mal e também mandei um e-mail pedindo minha
redução de função e de carga horária, tendo em vista que precisava, de fato,
fazer outra coisa para que a grana entrasse e eu pudesse me sustentar
novamente. Três dias depois, recebi um email suspendendo meu contrato de
trabalho por ter causado prejuízos para a instituição devido as duas faltas da
semana anterior.
EU ESTAVA COM COVID!
E foi assim mesmo! Por email. Distante.
Seco. Frio. Feio.
Confesso que não me espantou porque, nos 3
longos anos que trabalhei lá, vi isso acontecer com outras pessoas. Digo longos
porque, por nunca ter sido uma funcionária regular, eu vivia cada um dos
minutos que ali estava. Chegava mais cedo que todos, saía mais tarde. Sempre.
Dava aula no turno da manhã, gerenciava o que precisava gerenciar à tarde.
Nunca hesitei em pegar meu carro e viajar de bate e volta para a Região dos Lagos
para fazer reuniões, resolver problemas que, de fato, não eram meus. Fiz muito
mais do que recebia para fazer e sempre fiz com gosto, porque meu trabalho
nunca foi somente trabalho. Eu simplesmente amava o que fazia. Chegar na escola
as 7 da manhã e ser recepcionada com aquelas carinhas pequenas e inchadas era o
máximo! Meu combustível. Depois, mesmo exausta, mesmo sentindo dores que
ninguém poderia dimensionar (porque não sou muito de falar do que sinto), eu
voltava pro escritório e fazia tudo de novo, sempre pensando em apresentar
melhores resultados. Sempre pensando em levar para os meus alunos e os alunos
de tantas outras escolas o melhor que poderíamos dar. Lutei por uma causa que
não era tão minha quanto achei que fosse. E fui descartada, como se nunca
tivesse por ali passado.
Até agora não me encontrei em mim mesma.
Não sei o que vai ser de mim quando anunciarem o retorno das aulas. Porque não
era qualquer escola, era aquela escola. Não eram quaisquer alunos, eram aqueles
alunos. Porque eu sou assim. Sou por inteiro onde quer que eu pise.
Estou recomeçando. Hoje numa carreira
diferente. Aos 38 anos me pego na cadeira de aluna, aprendendo como fazer, como
melhorar, como crescer. O tempo é cruel muitas vezes, mas dessa vez ele está
sendo meu aliado. Porque, por mais que eu tenha passado por tudo que passei (e
ainda estou passando), não me falta absolutamente nada. Não me falta um teto,
comida, afeto, amor. Não me falta apoio daqueles que estão comigo pro que der e
vier. Não me falta uma família que me auxilia, seja me ajudando a pagar as contas,
seja me ouvindo lamentar, seja me incentivando porque estou emagrecendo e cuidando
mais da minha saúde.
Esse desabafo não é um gesto de
autopiedade, tampouco um desabafo de autolamentação. Na verdade é o oposto
disso. É um desabafo de gratidão.
Gratidão ao Poder Superior por me mostrar,
sempre, quem é quem. Por me manter intacta contra esse tipo de maldade, contra
essa falta de humanidade. É de gratidão por ter na minha vida pessoas que me
procuram só para saber como estou, se está pintando algum job, se está faltando
alguma coisa. Por ter na minha vida seres humanos que são, muito mais do que
precisam aparentar ser.
Não adianta ter um postura de compaixão com
o próximo se não cuidar daqueles que estão ao seu lado. Cuide dos teus! Sempre!
Não to curada ainda. A dor de vez em quando
me pega firme e me deixa pequenininha, querendo colo. Há dias que quero gritar,
outros me enfio numa concha e só consigo pensar. Mudar de rumo requer uma
bússola bem alinhada e a minha ainda não está.
E apesar disto, sou grata!
domingo, 3 de janeiro de 2021
PESADELO
Acordei e não consigo mais dormir. Deitei cedo, comecei hoje a ler um livro muito interessante indicado por uma pessoa muito interessante. Leitura sempre me faz dormir, então, ao terminar de ler o tanto que eu tinha determinado para esta noite, dormi. Acho que ainda nem era meia noite, o que tem se tornado uma novidade na minha vida desde os últimos acontecimentos profissionais. Acordei assustada com dois pesadelos interligados e totalmente diferentes. Em um deles eu estava vendo um arrastão acontecendo no condomínio que fui criada. Eu estava vendo pela janela os bandidos armados de fuzis assaltando pessoas que conheço, roubando seus pertences a matando desnecessariamente. Em algum momento do pesadelo eu estava em um taxi fugindo deste mesmo assalto/arrastão/chacina. Quando tudo se acalmou, voltei para o apartamento onde minha mãe mora – apartamento este que passei a maior parte da minha vida – e ela estava aflita porque ela havia deixado meus cachorros com uma grande amiga minha. Cachorros estes que foram embora da minha vida no ano passado devido a diversos problemas. No entanto, não pretendo revisitar este passado neste post.
Eu falava pra minha mãe – que tinha
se safado do assalto/arrastão/chacina – que eu falaria com a minha amiga. De
repente, como acontece nos sonhos, eu estava em um lugar que parecia um
santuário de animais selvagens e estes cachorros estavam lá. Somente eles. E
dois deles que brigavam muito e que foram o motivo de eu ter que, infelizmente,
tirá-los da minha vida, estavam juntos, unidos e brincando. Eu falava com a minha
amiga que aquilo seria potencialmente perigoso, tendo em vista que a relação
deles sempre foi muito explosiva e as brigas muito feias. Separamos. Um dentro
de uma grande jaula – grande mesmo – e o outro solto. Subitamente percebo que
um deles estava tentando pular a jaula, que tinha uma grade verdadeiramente
alta. Quando ele conseguiu, percebi que não era o cachorro – que tinha uma
coloração amarelada. Era um leão. E este leão atacou prontamente o cachorrinho
(que costumava ser bem manso quando não estava na presença deste com tom amarelado).
Eu nada pude fazer. Virei de costas para não vê-lo sendo devorado, sentindo
todos os músculos do meu corpo se tremerem como um papel em frente ao
ventilador.
Acordei. Apavorada, tremendo e
suando muito.
Sonhos representam bastante como
estamos nos sentindo. E me sinto trêmula. Trêmula de medo de tudo que está por
vir na minha vida justamente por estar, nesse momento, experimentando sensações
bem novas.
Levantei, tomei um banho quente estilo
escalda couro, comi uma tapioca com queijo coalho, requeijão zero e alho poró –
amo, inclusive – e um copo de coca zero bem gelado. Já perdi 23 quilos dos 40
que ganhei, não posso vacilar. Estava com fome e não queria pegar meu carro e
ir ao McDonald’s, como minha outra eu, 23 quilos mais gorda faria.
Voltei pra cama. Rolei, rolei e
nada. Não consigo voltar a dormir porque estou com a sensação ruim que um
pesadelo causa. To impressionada e com medo ainda. Por isso decidi escrever.
Eu sei que tudo na vida passa.
Claro que passa. A dor diminui, os apegos mudam de direção, as verdades de hoje
não são as mesmas de amanhã. Ou talvez sejam. Mas o fato é que sentir é o que
me causa mais medo no momento. Sabe aquele almejo infantil de apertar um botão
e eliminar tudo que você está sentindo?
Assim como meu processo de emagrecimento
tem sido lento, calculado e constante, entrei em um modo de emagrecimento
emocional. A auto sabotagem de antes hoje não me tomou. Só por hoje.
Por mais que a ferida esteja
coçando, não vou retirar essa casquinha.
Vai cicatrizar.
sábado, 24 de outubro de 2020
AMOR DE CINEMA
Todo mundo sonha em viver uma grande história de amor. Daquelas dignas de filmes de Hollywood, onde, no fim da trama, o mocinho percebe que cometeu um terrível engano e se descobre completamente apaixonado pela mocinha. Então, a fim de impedir que ela embarque naquele avião, ele pega um táxi e se depara com a Oakland-Bay toda engarrafada. Preocupado em não chegar a tempo ao aeroporto, ele sai correndo e a vê de relance, pela janela de um táxi, que estava um pouco mais a frente. Ele abre a porta do carro e pede que ela não vá para Boston porque ele a ama. E faz o pedido de casamento em cima dos carros. Todos buzinam e aplaudem.
Créditos.
Não desacredito que essas
histórias existam. Mas fomos programados para acreditar que elas são tão
corriqueiras que, certamente, em algum momento, acontecerá conosco. A
frustrante realidade vem como uma tijolada pra nos mostrar que, por mais que
acreditemos, não vai. Mesmo quando duas pessoas se conhecem ao acaso (vamos
chamar de acaso o que acredito que seja destino – olha a crença do romantismo
enraizada no discurso). A conexão é imediata porque elas duas viveram situações
muito parecidas. Incontáveis coincidências que as levam a pensar que foram
feitas em par. Tudo rola numa fluidez incrível. Tão leve que se torna perfeito!
O elo entre as duas faz com elas entrem em outra dimensão quando veem o mundo
uma pelo olhar da outra. As portas estavam abertas, iluminando todo o cômodo.
Uma porta se fecha. A outra permanece escancarada.
Não conseguem se afastar por
completo. E tudo aquilo parecia estar destinado para ser um grande amor – digno
dos filmes de Hollywood – se torna um castelo pintado de azul e amarelo com
cheiro de paz e foto do pôr-do-sol em frente ao mar. Um castelo chamado
amizade.
Todos os indícios apontam que
aquela amizade é apenas subterfúgio, um atalho driblar o medo de uma nova
entrega, para aprender a lidar com os sentimentos que fogem ao alcance da
compreensão. A vida as marcou com ferro em brasa, as feriu e essas feridas
ainda estão abertas. Em uma delas já mais cicatrizadas, na outra, ainda em
carne viva. Uma é o Sol. A outra, a Lua.
Uma paralisa com a certeza de que
essa era a sua grande história de amor. Foi ela que não conseguiu fechar a
porta. A tal história de amor vivia dentro da sua imaginação. E por essa
certeza, aguardava detidamente esse despertar. Ela era a moça indo pro
aeroporto.
A frustração da vida que a
Oakland-Bay não estava engarrafada. Não tinha taxi. Não tinha Boston, nem
pedido de casamento ao som de gritos e buzinas. Esse amor de cinema criado
pelas suas crenças românticas enraizadas simplesmente não existia.
E a vida é assim.
Créditos.
terça-feira, 21 de janeiro de 2020
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
NADA, NO MUNDO, JUSTIFICA GROSSERIA GRATUITA
segunda-feira, 18 de novembro de 2019
sábado, 26 de outubro de 2019
DIÁRIO DAS COMPULSÕES - 26/10/2019
Parem. Apenas parem.
O transtorno obsessivo compulsivo atinge cerca de 2,5% da população mundial e é uma coisa até bem comum. Principalmente porque às vezes somos compulsivos e não sabemos. Eu sei que sou. Eu assumo que sou e isso não me afeta em nada. Na verdade só me afeta por conta do vício do cigarro. Vou falar disso agorinha mesmo.
Eu tenho TOC há muitos anos. Sempre tive, eu acho. No começo era engraçado e eu levava na brincadeira, como de costume. Teve uma época que deixou de ser e acabei com manias muito complicadas, como, por exemplo, tocar em todas as maçanetas de um corredor. Ou usar a meia do pé esquerdo do avesso. Meus amigos que passaram isso comigo sabem bem. Depois de anos de tratamento a coisa se assentou e não tenho mais episódios tão característicos como repetir movimentos, ou usar a meia do pé esquerdo do avesso. Mas eu fumo. E bastante.
terça-feira, 1 de outubro de 2019
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
SOL DE INVERNO
sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
2018
NÃO TEM COMO PARAR
Ando descobrindo muitas coisas nessa tal de vida adulta. Que é difícil, todo mundo sabe. Mas pra uma pessoa neurodivergente o troço se embol...
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Hoje em dia, percebo um aumento significativo nas pessoas que alegam ter TDAH. Não desacredito, óbvio. Bem como não entendo o “orgulho” de v...
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Há um tempo meu corpo vem reclamando de algumas coisas. Do cigarro, do peso, do tratamento mal feito que eu tenho seguido para o TDAH. Como ...
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Fé, pra mim, sempre foi um tema bem complicado. Complicado no sentido de acreditar mesmo. Fui criada em escola católica, década de 80, apr...